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Como você assiste filmes e seriados? E como ouve música?

Muito provavelmente, nossa resposta pra pergunta do título caracterize algum tipo de crime. O Pedro Doria fala disso na sua coluna do Link de hoje, comentando sobre as leis que tentam regulamentar esta questão dos direitos autorais no mundo digital mas, na prática, acabam tornando todo mundo criminoso.

Triste, mas verdade. As leis, praticamente impossíveis de serem seguidas, refletem o descompasso entre a realidade de quem consome (nós, a audiência) e a realidade de quem produz (eles, as gravadoras, os estúdios). Enquanto “eles” não chegarem a um acordo sobre o que é justo para cada parte, considerando os novos meios de distribuição de conteúdo, “nós” vamos continuar pagando o pato.

Depois da greve de meses dos roteiristas, parece que, agora, os atores também vão parar. É chato, mas, se for contribuir para uma solução, acho válido. Concordo que é preciso repensar o modelo de remuneração da cadeia toda, levando em conta o fator internet, que realmente mudou tudo. O programa de tv não passa mais só na tv, a música não toca só no rádio ou no cd player e o filme não é visto só no cinema, no dvd. Sim, a gente acessa e faz download desse conteúdo todo online. Isto é fato. Então tá, é preciso redefinir os padrões dos contratos todos. Mas rápido. Porque enquanto “eles” discutem e tentam preservar suas receitas, restringindo o acesso ao conteúdo digital, a pirataria só cresce.

Quem quer se manter na legalidade sente no bolso.

netflix itunes

Exemplifico com minha experiência com filmes: recebo DVDs via Netflix, mas, quando quero assistir algo na hora, recorro ao iTunes (pros lançamentos), ao marketplace do Xbox Live (se quero assistir direto na tv, não no computador), ao Hulu (se não estou buscando algo específico).

Testo de tudo :) mas estou desistindo. Os serviços gratuitos legais ainda têm muito pouco conteúdo. E nos serviços pagos, a brincadeira está saindo cara demais. Quero pagar, mas os preços estão absurdos.

O Netflix lançou recentemente seu player pra tv, que é um console que permite aos assinantes assistirem na televisão todo o acervo online, na hora que quiserem, sem aumento no valor da mensalidade. Achei que era o modelo perfeito. E, como modelo, até é, mas adivinha? A biblioteca online ainda é restrita (só 10% do acervo de DVDs), por causa dos vários conflitos de interesse dos principais estúdios de cinema.

É, ainda vai levar um tempo até essa novela ter fim. Enquanto isso, continuaremos sendo “criminosos”. Mas, pegando carona no texto do Pedro Doria:

“Se a lei torna todo mundo criminoso, o problema não é da sociedade. É de quem fez a lei”.

Cloverfield, Lost, Bruxa de Blair e o “novo” jeito de fazer entretenimento

Ao contrário do que o título deste post possa indicar, eu não gosto de filmes apocalípticos e, muito menos, de filmes de terror. Então, Cloverfield e Bruxa de Blair passam longe do meu “top 5 movies”. Pra completar, sou uma das poucas pessoas do mundo que não assiste Lost. Mas gosto das discussões que eles geram (geraram) e dos caminhos que traçaram, mostrando esse jeito “novo” de fazer entretenimento.

Ia fazer um texto sobre isso, mas aí lembrei desse e-mail que o Alê me mandou logo depois que assistimos Cloverfield e que fala muito bem disso. Então, com a devida autorização, copiei o e-mail aqui:

“Pois é, Clau, cheguei em casa e foi meio impossível resistir a tentação de procurar mais sobre o filme. Já tinha fuçado um pouco antes no ARG que o antecedeu, mas a correria não tinha me deixado ir muito longe. Bom, a investigação durou a madrugada e acabei me deparando com um monte de conteúdo complementar ao filme. Nada que fosse essencial para o entendimento conceitual do roteiro, mas, sem dúvida nenhuma, eram coisas muito interessantes e que acabaram tornando minha experiência com o filme muito mais rica.

Claro que ARG já é algo quase-comum, mas, como tudo na vida, existe o bem feito e o mal feito. E, pra mim, se tem um cara que anda aproveitando bem todo esse lance de novas mídias é esse tal de JJ Abrams. Admito ser um pouco suspeito falando dele, por ser um fã confesso, radical e briguento de Lost, que ele produz. Mas a própria série é um exemplo claro de bom uso das trocas de realidade. Lost experience, o primeiro ARG da série, lançado na segunda temporada, se não me engano, foi ótimo. Com direito a invasão e retirada dramática da personagem na comicon acusando atores e produtores de complôs malignos contra humanidade. Posso ser bobo, mas acho bem legal o filme ou a série não acabar quando desligo a TV ou saio do cinema. Até por que, você bem sabe, raramente isso acontece comigo, ruim ou bom, o filme sempre acaba virando motivo de longos pensamentos ou de preferência, longas conversas. O mesmo vale para o começo. De novo, posso ser bobo, mas, não é legal assistir a uma história já devidamente imerso nela? Me lembro da primeira vez que isso aconteceu comigo e o tanto que isso me marcou. Faz um tempo já, foi com Bruxa de Blair. Entrar no site, ver as entrevistas com as famílias que perderam os filhos, com o acusado dos assassinatos, ler as pistas, as lendas. Foi fantástico e, com certeza, essencial para minha excelente relação com o filme.

O que quero dizer é que acho que, em termos de experiência, talvez só lançar o filme no cinema tenha ficado obsoleto (pelo menos para bobos como eu). Alguma relação com o mercado em que trabalhamos? ;)

Faço dessas as minhas palavras :) Concordo muito. Não dá mais pra pensar só cinema ou só site ou só tv ou só-qualquer-canal-que-seja.
Não é só que o jeito de fazer entretenimento mudou. O ponto é que, como espectadores, o nosso jeito de consumir entretenimento está diferente também. Cloverfield, Lost, Bruxa de Blair… ainda que não goste do estilo dessas histórias, gosto das experiências que proporcionam. E, vocês sabem, it’s all about experience ;)

Cinema com lugar marcado

Taí uma coisa que sinto falta de São Paulo. Poder comprar o ingresso e escolher o lugar onde quero sentar. E poder decidir não ir se só tiver lugar nas primeiras filas, por exemplo.

Adoro cinema, mas se tem uma coisa que me estraga o humor é aquele tumulto na entrada da sala, ter que ficar na fila um tempão antes do início dos filmes mais concorridos, as pessoas correndo desesperadas para pegar um bom lugar. Concorda que isso prejudica muito a experiência? E que não tem o menor sentido?

Foi o recurso de reserva de lugar que me fez voltar a freqüentar o Kinoplex no Itaim. E, antes dele, o Cinemark do Iguatemi. Antes disso, privilegiava salas grandes ou filmes menos badalados. Ou seja, se mapeassem o meu “modelo mental” para ir ao cinema, este ia ser, certamente, um dos pilares de decisão.

Achei que isso era meio um senso comum. Pra mim, é um recurso tão óbvio, que faz tanto sentido. Por isso, me surpreendi hoje. Estava fazendo uma pesquisa rápida na web pra ver os países que adotam o sistema, e encontrei várias reações negativas na Austrália porque a rede de cinemas BCC implementou o “seat allocation” em Janeiro agora.

“So long BCC, it’s been nice, but don’t expect the people in my group to return until this stupidity is removed and people can make their own decisions as to where they want to sit.”

Juro que não entendo. Nada mais justo que privilegiar quem comprou antes. Certo?

Para aprender com os hotéis (e até com Hollywood!)

Fiz algumas aulas de inglês com uma professora americana, que, além das aulas, me contou sobre sua segunda profissão: trabalha pra uma empresa que faz “hotel experience evaluation“. Sabia que existiam empresas assim, com profissionais se passando por clientes para estudar a qualidade dos serviços em hotéis e restaurantes, mas nunca tinha conhecido alguém que fizesse isso, então pedi pra me contar mais.

É assim: ela faz parte de um grupo de consultores, que são recrutados de acordo com o perfil do hotel, do lugar etc. Quando o roteiro é mais romântico, por exemplo, é preciso que um casal vá, para que a pesquisa faça sentido, e assim por diante. Uma vez definido o consultor, ele recebe o roteiro a ser seguido, que varia de acordo com a proposta do hotel. Em todos os casos, passa-se por todos os estágios: desde a reserva do quarto até o check-out. Achei interessante como sempre incluem todas as variáveis (refeição no restaurante, no quarto, na piscina etc) e situações “não-ideais”, justamente pra entender como o staff do hotel lida com problemas: pedido de mudança de quarto, solicitação de serviços não-contratados na reserva… Estas visitas são repetidas em outros períodos do ano também (para testar diferentes situações: hotel vazio, hotel lotado), por consultores diferentes. Periodicamente, os resultados destas pesquisas são enviados para os hotéis, com as devidas recomendações.

Curioso como o processo é exatamente o mesmo para avaliar websites (recrutamento de usuários, plano de testes com tarefas que simulem todos os caminhos possíveis, erros…). Mas ainda é raro vê-lo aplicado assim, como no caso dos hotéis, de forma contínua, consistente. Muitas vezes, quem faz os testes é o próprio time que desenvolveu o site, o que nos torna míopes. Outro erro comum é testar sem um bom roteiro. E aí o natural é testarmos os caminhos mais óbvios mesmo, aqueles que normalmente vão dar certo. E assim deixamos de identificar problemas que o usuário comum, real, vai descobrir mais pra frente. E, mesmo quando fazemos testes com usuários, focamos só no lançamento. Imagina se o hotel só for avaliado na abertura…

Claro que estou forçando um pouco a comparação e que sei que nem sempre faz sentido adotar todas essas etapas de pesquisa. Mas, às vezes, acabamos não adotando nenhuma. Cronogramas apertados, budgets pequenos… motivos não faltam pra deixar de envolver o consumidor no processo. Pena, porque perdemos inputs valiosos.

Lembro agora de outro exemplo. Minha prima mora em Los Angeles e, de vez em quando, é convidada pelos studios pra assistir sessões de filmes em fase de produção. Nestas sessões, eles avaliam se o filme gerou a reação desejada, se a piada teve graça, se a mensagem foi entendida. No fim, acontece um bate-papo, um grande “focus group”. De acordo com o resultado, são feitos ajustes nas cenas, na edição final do filme etc.

Enfim, acredito que, com o mercado digital cada vez mais profissionalizado e movimentando mais dinheiro, as pesquisas com usuários vão deixar de ser um “luxo” e serão incorporadas ao processo. Como acontece em todos os mercados já maduros: empresas desenvolvendo novos produtos, agencias de publicidade testando campanhas, Hollywood testando seus filmes e, claro, hotéis avaliando seus serviços :)